Criar filha é ato político: os dados e a esperança de uma mãe
Em abril, nasceu Lara, uma menina. A autora, Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude, relata que, junto com a alegria, veio uma preocupação por saber o que significa ser…
Em abril, nasceu Lara, uma menina. A autora, Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude, relata que, junto com a alegria, veio uma preocupação por saber o que significa ser mulher. Ela cita os números, as histórias e as barreiras que ainda precisam ser enfrentadas. A preocupação deu lugar à responsabilidade, com a consciência de que criar uma menina é um ato político e que o exemplo será mais importante que qualquer discurso.
Segundo o 3º Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho, divulgado em abril de 2025, mulheres ganham em média 20,9% menos que homens nas mesmas funções. Para mulheres negras, a diferença chega a 52,5% em relação a homens não negros. Em cargos de gestão, apenas 37% são ocupados por mulheres, e para mulheres negras, esse número é inferior a 10%.
A Organização Internacional do Trabalho publicou um estudo em março de 2025 indicando que, no ritmo atual, levaria quase dois séculos para alcançar igualdade de gênero nas taxas de emprego. Uma pesquisa da Catho de 2025 mostrou que 60% das mães brasileiras estão fora do mercado de trabalho. Das que estão empregadas, quase 60% ocupam cargos operacionais, e apenas 15% estão em posições de liderança.
Das mães entrevistadas, 94,8% nunca foram promovidas durante a gravidez ou licença-maternidade. Metade deixou de participar de eventos importantes na vida dos filhos por medo de perder o emprego. A autora afirma que a maternidade ainda é tratada como obstáculo.
Tatiana Pimenta conta sua trajetória pessoal. Ela congelou óvulos em 2019. Em 2024, engravidou naturalmente, mas teve uma gravidez gemelar de risco com um aborto retido. Depois de um período de luto, decidiu pela fertilização in vitro. Após uma tentativa sem sucesso, na segunda veio Lara. Ela afirma que ser mãe, para muitas mulheres, é uma construção que exige escolhas, renúncias e planejamento.
A autora reconhece que é privilegiada por ser fundadora de uma empresa, ter autonomia e recursos. Ela aponta que a maioria das mulheres brasileiras não tem essa estrutura. A escolha entre carreira e maternidade é uma realidade imposta pela falta de creche, flexibilidade e políticas públicas. Mulheres dedicam, em média, o dobro do tempo que homens às tarefas domésticas e ao cuidado de filhos.
Tatiana afirma que quer que a filha veja uma mãe que trabalha, lidera, erra e tenta de novo. Quer que Lara veja mulheres em posições de poder como norma, não como exceção. Para acelerar a mudança, ela defende que empresas adotem políticas de parentalidade, creches corporativas e flexibilidade. Para os homens, defende que assumam o cuidado como responsabilidade compartilhada. Para as mulheres, pede apoio mútuo e abertura de portas.
A autora conclui com esperança ativa, acreditando que a mudança é possível e depende do que é feito todos os dias. Ela afirma que Lara nasceu em um mundo imperfeito, mas em transformação, e que fará parte dessa transformação.