Diretora de ‘Naira’ revela filme escrito após escapar da morte

O longa peruano ‘Naira’, dirigido por Gabriela Quiroz, foi um dos destaques emocionantes do Bonito CineSur. O filme acompanha a infância de uma menina indígena nos Andes e constrói um retrato sobre memória, pertencimento e identidade.
Em conversa após a sessão, a diretora revelou que a obra nasceu após uma experiência de quase morte. Gabriela contou que a ideia de filmar sobre a região onde cresceu sempre existiu, mas foi depois de uma viagem à Espanha que o projeto ganhou forma.
A cineasta percorreu o Caminho de Santiago durante a produção de um documentário. Ao chegar a Santiago de Compostela, decidiu seguir até Finisterra, local conhecido como o “fim do mundo” na antiguidade. Foi ali que tudo mudou.
O acidente no mar
Ao entrar no mar, Gabriela foi presa por correntes marítimas e algas. Sem saber nadar, começou a ser arrastada para longe da costa. “Eu não sabia nadar. Tentei pedir ajuda, mas estava muito longe da praia. Em determinado momento, achei que iria morrer”, disse.
Um homem conseguiu alcançá-la e a salvou. Depois, ele contou que saiu do escritório sem saber o motivo, olhou para o mar e a viu distante da costa. Ao perguntar seu nome, ele respondeu: “Jesús”. O episódio marcou a diretora profundamente.
“Naquele momento, enquanto acreditava que estava morrendo, pedi a Deus uma oportunidade para continuar vivendo porque ainda queria contar essa história. No dia seguinte, durante o voo de volta para Los Angeles, escrevi todo o primeiro tratamento de Naira em um guardanapo.”
Carreira em Hollywood
Antes de dirigir seu primeiro longa, Gabriela trabalhou por seis anos na Bad Robot, produtora de J.J. Abrams. Ela afirmou que Abrams foi uma das primeiras pessoas a incentivá-la a escrever. “Ele dizia que eu precisava contar minhas próprias histórias”, lembrou.
A diretora quis conhecer todos os departamentos de uma produção para entender como um filme é feito. Ela acredita que essa experiência a tornou uma diretora melhor.
Um Peru pouco visto
Quiroz afirma que queria mostrar uma realidade diferente do imaginário internacional, que costuma associar o Peru a Machu Picchu e Cusco. O filme se passa na região de Arequipa e coloca personagens indígenas no centro da narrativa. “Existem muitos filmes sobre Lima, Cusco ou Machu Picchu, mas quase ninguém conta histórias sobre as comunidades indígenas da região onde cresci”, disse.
A protagonista
Um dos pontos fortes de ‘Naira’ é a atuação de Yaneth Calla Supo. Gabriela tinha uma condição: a menina precisava ser da própria comunidade retratada. “Levamos anos até encontrar Janet. Quando ela fez o teste, recitou um poema que dialogava com o roteiro, sem saber nada sobre a história do filme”, contou.
As duas trabalharam juntas por quase um ano. Em vez de ensinar técnicas de atuação, a diretora criou uma relação baseada em brincadeiras e convivência. “Eu queria que tudo parecesse verdadeiro diante da câmera”, concluiu.

